segunda-feira, 4 de abril de 2011

Realizar nossos desejos é nos fazer livres?




Houve um tempo em que a realização dos meus desejos, era visto por mim, como a realização da minha liberdade.

No entanto, eu não podia perceber (ou procurava ignorar), qual era a fonte dos meus desejos, ou seja, de onde vinha o impulso para o desejo em si.

Quando observo de maneira despreendida, posso admitir que grande parte dos meus desejos funcionam tal como um programa pré-estabelecido de maneira inconsciente e que só é percebido quando emergem na consciência, e quando o impulso para a sua realização é observado nos reflexos das minhas ações.

Imaginem que todos os desejos de um indivíduo tenham como origem o seu meio, ou seja, todos os seus impulsos e todas as suas ações estejam direcionadas a imagens representativas de valores pré-estabelecidos, por exemplo, o "homoeconomicus" é o ideal humano mais presente na sociedade global hoje, é o tipo de individuo que concebe a sua realização por meio das suas conquistas financeiras, ele considera que quanto mais dinheiro mais liberdade, segurança e felicidade.

Seu crescimento é unilateral e se dá somente nesta direção. E portanto, todo o seu amadurecimento humano é comprometido.

É obvio que esta idéia é ilusória, no entanto, quando toda uma sociedade acredita numa ilusão, esta ilusão transforma-se numa realidade concreta, capaz de reger as nossas vidas e ditar nossos comportamentos.

Sendo assim, milhões de individuos se engajam na busca da realização de desejos que não são individuais, e sim coletivos, e a sua ambição é condicionada por seu meio, por sua cultura, aquilo que historicamente em cada época é determindo como valor, capaz de colocar um ser acima dos outros, tornar-se-á na direção em que milhões de indivíduos irão caminhar e moldar seu destino.

Ao olhar para este exemplo, notamos que a formação do desejo se dá de maneira inconsciente e condicionada através da cultura, sendo assim, cada indivíduo recebe estímulos desde criança, e através destes, tem a sua personalidade moldada, é por este motivo que a grande maioria de nossos desejos surgem de forma aparentemente espontânea, e não passam pelo crivo da nossa escolha e do nosso livre arbítrio, portanto, como pode a realização de nossos desejos vir a ser a expressão da nossa liberdade?

Imaginemos por um instante, que existe uma escala de desejos, quando um desejo de um degrau menor é plenamente satisfeito, logo o desejo de um degrau superior surge. Se conseguimos satisfazer todos os nossos desejos e necessidades primárias como o alimentar, abrigar-se, etc..., logo passaremos a considerar um outra classe de desejo, como o poder, a riqueza, entre outros.

Diremos que todos esses objetivos foram alcançados e o indivíduo ainda se sinta incompleto, e passe a partir deste instante a considerar as satisfações da alma, ou seja, desejos transcendentais, almejar aquilo que é enterno, como a iluminação, a plenitude do ser, o grande vazio, a salvação, o nirvana, etc.

Nenhum de nós individualmente ou particularmente criamos a direção desses desejos, estes surgem de forma espontânea, são motivados por multiplos fatores, e se introduzem em nossos sistema de crenças e de decisões de maneira independente e autônoma.  

E na maioria das vezes não é o indivíduo que leva adiante o seu desejo, mas é o seu desejo que o arrasta a realização de suas ações.

Diante de tudo isto, a ausência de desejos se assemelha muito mais àquilo que chamamos de liberdade do que propriamente o desejo e o impulso para a realização do desejo, pois se o desejo que há dentro de nós não foi plantado por nós mesmos, como poderia a sua realização ser um ato de nossa liberdade?

E é possível desejar o estado de ausência de desejos?

O desejo de abandonar o desejo, não deixa de ser também um desejo, entretanto, ele se direciona para um fim e não para um meio, o que faz deste desejo algo singular. 

Para isto é necessário reunir condições onde o estado de ausência de desejos se manifeste, neste estado é experimentado aquilo que muitos chamaram de mente vazia, ou estado de consciência plena.

Nesse estado os desejos desaparecem porque a paisagem interna e a fonte de todos os desejos, "se apaga", o que há para ser satisfeito a partir deste instante?

Se a grama cresce por si mesma, porque a grama desejaria crescer?

Só uma mente livre de desejos é uma mente livre.

Uma mente livre de desejos nunca perde o seu estado de presença, tranquilidade e serenidade, porque suas ações tem um fim em si mesma, não almeja chegar a nenhum lugar, mas o aqui e agora onde se encontra neste momento é onde precisaria e deveria estar, não precisa negar o prazer, simplesmente não o almeja (e por  não o desejar, não o é seu escravo), mas se ele se apresenta diante de si, possui a liberdade de escolha de desfrutá-lo e celebrá-lo.

Realizar nossos desejos é nos fazer livres?

Não! Liberdade é ser além de todos os impulsos e de todas as agitações internas, liberdade é não precisar realizar coisa alguma no "mundo das formas" para descobrir que a liberdade está em nossa real natureza.

Um comentário:

Fernando disse...

Concordo totalmente.

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