domingo, 27 de abril de 2014

Somos as grades de nossa própria prisão imaginária




Pensar é um hábito que acontece de forma automática e inconsciente.

O pensamento está a todo tempo em atividade, ora estamos avaliando nossos próximos passos, planejando, tentando decidir o que fazer, sem perceber que a vida simplesmente acontece, o que estiver destinado a acontecer, acontecerá independente dos nossos pensamentos, de nossos planos e ora estamos tentando ajustar o passado, justificando-o, interpretando-o, para torná-lo aceitável às nossas conveniências.

Ora estamos julgando a nós mesmos ou aqueles que estão a nossa volta, temos dentro de nós já programado toda a base daquilo que consideramos certo ou errado, de acordo com a educação que recebemos e a nossas próprias tendências determinando o que nos é conveniente,  basta ver um ação de alguém que esteja ao alcance de nossas vistas e que não esteja de acordo com aquilo que julgamos como o correto (dentro desse nosso background), para o pensamento de forma fulminante condenar tal ato, ridicularizar o outro, trucidá-lo, não levando em consideração naquele momento, a nossa impossibilidade em atender as nossas próprias exigências com relação ao nosso próprio agir, a famosa cena da imagem alegórica do macaco sentado sobre o próprio rabo o escondendo e apontando para o rabo dos que estão a sua volta.

E isto é repetitivo, estamos a todo tempo sendo levados por este hábito de julgar,  julgamos principalmente a nós mesmos, a mente nos traz a lembrança de uma ação passada e nos frustramos, nos martirizamos, e o pensamento de forma automática nos dizendo -"você não deveria ter agido daquela forma" ou "você deixou de fazer aquilo que era tão importante", "você não pode deixar passar a próxima oportunidade", "você precisa provar para fulano que você não é assim, que você é isto e aquilo", "você precisa mudar a sua vida" e para explicar seus argumentos, a mente tem por hábito justificar a todo tempo, porque pensa desta ou daquela maneira, porque age desta ou daquela forma, e o diálogo interno segue julgando por horas, como se houvesse um multidão de vozes internas dialogando em nossas cabeças, e isso é esquizofrenia.

E o julgamento não é apenas moral, no sentido de julgar comportamentos com base no certo e no errado no que concerne as regras do bom convívio social, o julgamento também é a crença em nossa capacidade de compreender a realidade, explicando-a, avaliando-a e analisando-a, sem perceber que o pensamento através deste condicionamento apenas cria uma realidade a parte, porque a interpretação da realidade não é a realidade, mas uma distorção, uma sobreposição da realidade, a mente nos apresenta um mundo que retroalimenta a si mesma, e nós somos arrastados por crenças, e por este automatismo de pensamento, criando um mundo, um universo que só existe dentro da própria mente.

 
E nossas emoções estão todas linkadas aos pensamentos, emoções são programações constituídas pelo pensamento, arraigadas, cristalizadas, reagimos emocionalmente de forma automática, com base em informações pré fixadas, como se fôssemos atores, surge a cena de uma criança nascendo na família, fique alegre, sorria! Um parente próximo ou um animal de estimação vem a falecer, chore! Você inicia um novo relacionamento, comemore, celebre, fique feliz! Um relacionamento acaba, luto, julgue o outro como responsável, tenha certeza que deu o seu melhor, e procure um outro relacionamento para substituir por este e se vingar, ao mostrar que você agora estará bem com um outro, prova de que o problema realmente não estava em você! E assim há uma lista imensurável de reações já programadas e agimos como robôs, condenando a segunda-feira e celebrando a sexta.

Jamais haverá satisfação e felicidade na mente, mente é medo, é o constante temor de saber que aquela realidade concebida por ela é frágil, que a qualquer momento aquilo que não está dentro do esperado, simplesmente acontecerá sem pedir nenhuma licença ou aviso prévio, tudo aquilo que você acredita ter, você irá perder, e mesmo assim a mente lhe arrasta para o sentimento de posse, de ganância, de desejos, e lhe aprisiona mais e mais, dentro de um mundo imaginário que você acredita ser real, porque você acredita naquilo que a mente lhe diz a seu respeito, a respeito dos outros e a respeito do mundo, quando de fato só há a vida, não há você, nem o outro e nem o mundo, mas só a existência acontecendo naquilo que não acontece, que é base, o espaço, onde o ir e vir de todos os fenômenos surgem temporariamente.

Sem um trabalho real, que conduza a atenção em nós a reconhecer os truques da mente, seus hábitos arraigados, sua estupidez, sua limitação, sua arrogância, sua vaidade, que nada mais são que crenças, que tráfego de pensamentos, permaneceremos presos a esta teia, a este emaranhado de percepções, sensações, registros, padrões, que determinam nossa aparente realidade, nos confinando num ciclo de sofrimento, miséria, indecisões, medo, dentro de uma busca interminável, gerando um desgaste de energia incalculável, nisso desconhecemos o que é viver dentro de uma real vitalidade, dentro de uma real satisfação, real gozo, real bem-aventurança, viver é para nós um peso sem fim, uma luta diária, e não uma celebração da existência, nos sacrificamos em nome de pequenos e fugazes prazeres que estão todos encobertos pelo medo e pela dor.


Ninguém que esteja identificado com a mente pode fazer ideia do que é viver livre de julgamentos, livre da prisão do pensamento, e não podem se quer imaginar a felicidade presente no Ser, cuja energia não se esvai para manter uma base de vida que não é real.

Sem um real trabalho sobre nós mesmos, a mente não nos permite perceber que estamos numa prisão, que estamos na miséria, e ainda nos convence de que esta é a realidade última da vida, e nos motiva a disputar, a concorrer com aqueles que estão a nossa volta, num intenso investimento na superfície, em aparências, do tipo; quem pode se vestir melhor dentro dessa prisão, quem pode ter a melhor cela para morar, o melhor carro para se movimentar nesta prisão, a melhor formação, sem perceber que estamos dando a vida em troca da manutenção e continuidade desta farsa, desta mentira, dessas correntes que nos aprisionam, e ainda queremos estar numa posição melhor que o outro, todos iludidos pela mente, acreditando ser alguém na vida, acreditando em sua posição na vida, valorizando o seu senso de autoimportância, sem perceber que toda esta importância que damos a nós mesmos, é o alimento que esta mentira necessita, que a mente precisa, para manter o seu reinado de ilusões.

Não há liberdade na mente, a mente é a prisão, é miséria, é limitação, hábito, padrões, apenas um tráfego de pensamentos, que acontece dentro desta inconsciência, onde a atenção é capturada e transformada em força motriz, em energia vital, para dar continuidade a esta Matrix, que é um sistema que cria um mundo a parte de realidade, e que nos mantém aprisionados a ela, sustentando-a, dando literalmente a vida, como se ela nos fosse real, como se ela fosse a nossa conquista, a nossa glória.

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