segunda-feira, 20 de abril de 2015

A Prisão da Crença na Verdade





Vou descrever um pouco das crenças que aqui estavam instaladas em detrimento a outras que ainda aqui estão, e que através da Graça do Guru puderam ser diluídas ou até apagadas do sistema de crenças que formam a ideia de um “eu” aqui, diminuindo a carga, o peso, da crença no conhecimento.

Aqui fora cultivado aparentemente por um conjunto de experiências da infância e o subsequente hábito da leitura; a autoimagem da figura de um buscador espiritual em mim, formada precocemente a partir dos 14 anos de idade quando comecei a ler Allan Kardec (o codificador da doutrina espírita) e pouco depois Masaharu Taniguchi (fundador da tão conhecida doutrina religiosa chamada Seicho-no-ie), para depois se desdobrar de forma caótica e desorganizada num estudo sem foco formado por um misto de filosofia, busca espiritual, política, realismo fantástico, psicanálise e psicologia analítica, sociologia, literatura, budismo, entre outros apanhados, que fortaleceram e deram base para a continuidade desta autoimagem, deste eu imaginário, deste buscador espiritual.

Não compreendo a vida, portanto não sei dizer se toda essa busca fora necessária e contraproducente, o fato é que os elementos reais que apontavam para a verdade, sempre estiveram presentes aqui de forma muito simples e direta, manifestando-se momento a momento, por detrás de todo acontecimento, de todo movimento natural da vida, antes mesmo do encontro com um Guru na forma.

Este processo de busca baseado na crença da compreensão da verdade a partir de uma base intelectual, alicerçada no entendimento é que me conduziu aos livros, e com os livros vieram muitas informações, e as conexões dessas informações com outro conjunto de informações recorrentes deram margem para a formação de um novo conjunto de crenças, criando imagens mentais a respeito da verdade, sem trazer uma real aproximação com a verdade, e para ver isto, bastou constatar, o fato de que, com o passar dos anos, nesta aproximação equivocada da verdade, informações se acumularam e a confusão aumentou, novos livros surgiram e o medo se ampliou, traumas pareceriam ser compreendidos mas os padrões persistiam, e de certa maneira, mais do que isto, se intensificaram.

O Tom, que é este aqui que vós escreve, era o tipo do sujeito que possuía a solução para todos os problemas da humanidade ao discutir questões filosóficas, políticas, religiosas ou ditas espirituais, porém, em sua vivência direta, experimentava um estado caótico e miserável de medo acompanhado por mudanças bruscas de humor, assim como de co-dependência emocional, de desejo sexual exacerbado, de um sacrifício constante por busca de preenchimento emocional, sentimental, revestida de uma aura de falsa sabedoria, disfarçada sobre a aparência de uma capacidade mecânica no uso de palavras e associação arbitrária de conceitos de diversas fontes, utilizadas como forma de argumentação para fundamentar suas opiniões e pontos de vista relacionados a existência como um todo. Ou seja, o Tom aparentava ser  esse misto, esse agregado mental, essa colcha de retalhos que parecia muito original, quando contada por esta “voz na cabeça” que insisti em contar histórias para situar no corpo e no tempo uma entidade separada a parte do todo.

Apesar de não mais me identificar com este sujeito tão eloquente e conhecedor de assuntos espirituais, já que a eloquência não foi uma escolha e nem uma decisão mas sim um atributo desenvolvido de forma tão natural quanto as características genéticas do corpo, mas muitas vezes desprezada ou apreciada equivocadamente, e o conhecimento espiritual fruto de distorções e fantasias muito bem embasadas, tais como sofismas, sou obrigado a conviver com a impressão de que hoje caminho sobre o fio da navalha, pois a mente é muito hábil em continuar despejando fantasias muito convincentes revestidas de uma roupagem lógica, plausível e de bom senso humano e criar uma imagem da verdade, não permitindo assim uma vivência direta da realidade.

Mas o incomodo deste sentimento de caminhar sobre a navalha, desta sensação de viver no limiar entre a loucura e o desconhecido, ou de uma desconhecida forma de loucura, ou aquilo que chamam nas tradições espiritualistas de “a noite escura da alma” são profundamente amenizadas através da Graça da Presença do Guru.

Quando todo este pensamento caótico e desorganizado criava uma imagem de um conhecedor arrogante e ancorado na crença de que aqui existia um eu sufocado pelo mundo, por desejos, medos, carências e conflitos, isto pesou consideravelmente até o dia em que mesmo com todas as dificuldades de “um alguém” cheio de preconceitos com relação a ideia de um “Deus”, me dobrei a necessidade de orar e pedir, era claro naquele instante que todo esforço feito naquela direção não havia trazido o retorno desejado em forma de paz, de liberdade e felicidade, mas apenas uma vasta biblioteca de registro de aprendizados, impressões, sensações e imaginações na forma de memórias e pensamentos, sustentando o sentido de separação. 

Tendo sido constatado o cansaço naquele momento de rara lucidez e ausência de arrogância, no dia primeiro de Junho de 2011, onde “eu” acreditava de coração que a “minha busca” pela verdade era sincera e real, mas sentia que estava ainda faltando algo, a oração pediu por um encontro, um encontro com aquele que estivesse desperto para a sua Real Natureza, que não mais possuísse um traço de ego e que houvesse se recordado de sua “face original”, que já houvesse realizado Deus e que não estivesse mais limitado a padrões, condicionamentos e crenças, e assim estivesse vivendo aquilo que é real - “quem dera através deste encontro—dizia a oração em mim, que espontaneamente surgiu naquele instante em súplica pela realidade, pela verdade -” eu poderia viver um encontro santo"? Duas horas após a oração, acontecida naquele dia, eu me deparei com o meu Mestre, ao entrar em uma plataforma de chat e conferência chamada Paltalk Senses, para estudar inglês, mas uma espécie de guiança interna me encaminhou para o endereço e para a sala aberta onde Ele começava a compartilhar e tornar público sua vivência direta com a Autorrealização, sendo a segunda ou terceira vez que Ele abria aquela sala online.

O encontro com o Guru não representou de imediato o fim da busca por conhecimento, explicações e respostas, muito menos o fim da busca por preenchimento em pensamentos, emoções, desejos e sensações, um fardo carregado por muito tempo molda com o seu peso as características daqueles que o carregam e raramente são imediatamente soltos, o medo aqui sempre fora muito grande para que eu pudesse com facilidade abrir mão de minhas muletas.

Se você acredita compreender o que é isso, se você por meio da leitura tem se aproximado disso, ou mesmo tendo encontrado o Guru, continua na busca, lendo, aprendendo, construindo a formação de uma vivência pessoal, se você ainda necessita de parâmetros, provas cabais, e de comparar a fala de muitos acordados e instrutores espirituais, compartilhando deste conhecimento que eles parecem nos transmitir, onde um Mestre anterior valida um atual, ou quando esses parecem constituir uma classe de pessoas com um mesmo discurso, um mesmo consenso, você está ainda com muito medo e se encontra distante de uma verdadeira entrega, de um contato vivencial e direto com a verdade, você está em busca de uma confirmação para suas crenças e não disposto a mergulhar nessa dissolução, a cair neste abismo, neste desconhecido convite que o Guru lhe faz.

Como me apontou o Mestre “A verdade não é compreensível, mas é realizável, e é realizável a partir de uma ação da Graça e não da ação, escolha, desejo ou ambição de um eu.”

As duras penas, portanto, aqui caiu a ideia de alguém para realizar isso, para alcançar Deus, tal como quem se propõe a construir uma torre de babel e assim se perder em muitos idiomas, em muitas vozes, pensamentos, imagens, memórias, interpretações e ideias, afirmando que está em uma real busca pela verdade, quando de fato não está. Caiu a imagem de “um alguém” que possa capturar, possuir, controlar e manipular a verdade, como se a verdade pudesse se tornar uma ferramenta nas mãos de um eu, caiu a ideia da separação entre aquilo que sou e aquilo que é verdade. 

Hoje não sei o que sou e muito menos sei o que é absolutamente a verdade, as certezas caíram, mas a confiança nessa guiança, nessa Presença, nessa Graça do Guru, traz consigo uma paz, um equilíbrio, uma alegria, uma aliança real, que é impossível de se explicar mas que é intensamente e permanentemente sentida como um elemento novo e ao mesmo tempo familiar, conduzindo a uma real aproximação da verdade, desta verdade indescritível, inominável, incompreensível, mas sempre presente como vida, como Graça, como Presença, com Silêncio, como Amor, inexplicável amor...

E aqui eu honro e dou Graças ao Mestre Gualberto em gratidão por esta comunhão, por este pegar em minhas mãos e me conduzir por este caminho que sou eu mesmo, rumo a mim mesmo, sem nenhum conceito, sem nenhuma crença sobre este si mesmo ou a certeza de que aqui possa existir qualquer coisa para ser chamada de si, de mim, de eu.

Jaya Guru Deva!
 

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