sexta-feira, 1 de abril de 2011

Ansiedade e Tempos Modernos - 2ª Parte




Na última postagem com este título, deixei um questionamento para o leitor, qual é a causa da sua ansiedade, quais suas origens e quais são as suas razões.

Caso não tenha lido a postagem anterior, sugiro que a leia, e que reflita primeiramente sobre tais questões antes de dar continuidade na leitura desta segunda parte.

Pois bem, como forma de exemplificar os motivos pelos quais eu me tornei uma pessoa ansiosa (hoje, quase um monge comparado a anos atrás, graças ao um importante trabalho pessoal de mudança e autoconhecimento), e acredito que muitas das causas que faz de mim uma pessoa ansiosa, são as mesmas causas que faz milhões de outras pessoas também ser ansiosas, porque afinal vivemos numa mesma época, fruto do mesmo desenvolvimento histórico, compartilhamos de uma cultura comum e sofremos muitas das vezes com as mesmas opressões, descreverei aqui as principais razões que me motivaram a ansiedade.

Qual é a causa da minha ansiedade e quais suas origens e as suas razões?

Primeiramente, preciso observar que os fatores envolvidos neste processo de formação da ansiedade são múltiplos, entrelaçados por muitas causas, origens e circunstancias, entretanto creio que algumas dessas causas possuem raízes maiores do que as outras, por esta razão, precisaremos continuar com as doses homeopáticas, este série de postagens não se encerrará aqui.

Creio que as necessidades são a primeira causa da ansiedade, e tal fato deve ser comum tanto para homem para animais e talvez até para as plantas, a necessidade de realizar a manutenção pela existência gera ansiedade, quanto mais difícil for este processo maior será a ansiedade, até que satisfaça suas necessidades primárias, o ser terá a sua mente oprimida pela ausência desta satisfação e projetará a mente no sentido de conquistar aquela satisfação, concentrar-se-á no depois, e não estará totalmente presente no seu agora.

Um indivíduo que tenha nascido durante um período histórico de guerra, com intensos confrontos militares, terá como ansiedade constante e intensa necessidade de combate e de se projetar para o mantenimento de sua existência física. Ou alguém que viva num local de grande escassez de alimento, terá uma ansiedade intensa, na expectativa de satisfazer esta necessidade.

Ou seja, eis uma palavra chave, expectativa. A ansiedade sempre estará ligada a expectativa, como a expectativa da satisfação de uma necessidade, de um desejo, etc.

No entanto, tendo nascido num ambiente cuja satisfação de todas as suas necessidades básicas são imediatamente atendidas de forma satisfatória como abrigo, moradia, vestimenta, alimentação, segurança, um bom lugar para dormir, etc, inexistirá neste indivíduo uma ansiedade intensa decorrente da necessidade da satisfação dessas necessidades, poderá haver o medo de uma crise, de não haver o suficiente amanhã, isto decorrente de não haver uma segurança tangível, porém, na média geral, não existirá esta ansiedade necessariamente.

É aí que ansiedade passará a estar ligada ao desejo, vamos definir o desejo como uma segundo nível de busca por satisfação (quem quiser se aprofundar mais neste ponto da satisfação de necessidades, primárias, secundárias e demais eu sugiro pesquisar informações a respeito da chamada "Pirâmide de Maslow"), este segundo nível já começará a tornar-se subjetivo, variará de uma sociedade a outra e de um indivíduo a outro, e aqui muitas distorções, deturpações e "fixação de padrões infantis" passam a surgirem.

Por exemplo, o individuo não tem mais a necessidade básica de se vestir, mas ele passa ter a necessidade de buscar se diferenciar do seu meio para se destacar, para isto, busca roupas que "traduzam a sua personalidade" ou roupas de grife que demonstrem a capacidade do seu poder de consumo. 

Não há mais a necessidade básica de se alimentar, mas a comida torna-se uma fonte de satisfação e de prazer, são necessários pratos sofisticados, sabores diversos, o foco está na satisfação do desejo e não na satisfação das necessidades nutritivas dos alimentos consumidos.

Um outro ponto marcante que já podemos observar aí, é a questão da competição entre iguais, seres humanos passam a sentir a "necessidade" de obter destaque perante os demais, ser melhor que o outro, torna-se uma necessidade artificial, ou seja, produzida pelo homem, e o poder do consumo é observado como o meio principal de se obter o sucesso como indivíduo.

Esta concorrência, esta disputa, esta necessidade de se lutar para obter sucesso, transforma a ansiedade numa porta aberta para a entrada de outros transtornos diversos.

Outra questão que podemos observar aqui, a "necessidade" de obter a satisfação por meio de sensações das mais intensas possíveis, destrói a sensibilidade humana, que passa a transformar a quantidade em parâmetro fundamental para medir se aquilo é satisfatório ou não, e não a intensidade da experiência singela em si, ou seja, aquilo que não ajudar a nos destacar perante os demais, não será tão bom para nós, portanto, a alegria da amizade sincera, o valor da inocência e da beleza da presença de uma criança ou o frescor de uma tarde de sol, deixam de ser fontes de satisfação e alegria genuína.

O consumismo sem dúvida alguma, torna as pessoas mais ansiosas, e os meios ligados à condução da satisfação do consumo também, com a carreira profissional ou um outro meio ilícito para se obter dinheiro, quanto maior a ambição de um indivíduo, maior o grau da sua ansiedade.

Os valores da forma com que são impostos pela sociedade moderna é um outro fator, para a causa da ansiedade coletiva, um ser humano simples e puro, nascido naturalmente, não é visto como um ser vitorioso, importante, profundamente significativo, não.

Ele precisará primeiro provar o seu valor, realizar ações que o torne importante, lutar e batalhar para transformar-se num vencedor e esses modelos e fórmulas para se obter o sucesso são impostos de forma cruel, opressora e violenta dentro da sociedade, conduzindo poucos aos louros da realização (que é na realidade uma falsa realização, porque é sempre a custa de sacrifícios, perca, aparência, artificialimo e profunda ansiedade para se conquistar e para se manter a conquista), enquanto outros milhões, a grande maioria, se sentirão como indivíduos de segunda categoria, ou seres derrotados ou desfavorecidos diante da sociedade.

Vamos exercitar novamente a reflexão?

Até onde os meus desejos, minhas expectativas e a minha ambição são responsáveis pela minha ansiedade?

Até onde esta opressão social e cultural, carimbada hoje como um dogma sagrado e quase inquestionável imposto pelo capitalismo financeiro em sua economia neoliberal foi capaz de contaminar a minha mente, a ponto de eu acreditar em modelos artificiais e mentirosos de fórmulas de como alcançar a realização  suprema e o sucesso humano?

Até onde vão minhas necessidades, onde começa meus desejos e onde o supérfluo toma conta?

Na terceira parte continuaremos a tecer esta reflexão, para tentarmos conhecer a causa das ansiedade em suas raízes.

Trata-se de um trabalho difícil?

Posso dizer que sim, mas com certeza não tratá-se de um trabalho que exija sacrifício, e sim dedicação ou como se diria no budismo na nobre senda óctupla, de atenção correta, de esforço correto e de correta compreensão.

E qual é o pagamento para este trabalho?

É a superação de transtornos, inquietudes, medos, sofrimentos, etc. É a superação da ansiedade, é o encontro com a alegria genuína e com a paz, é a simplicidade e a humanização do ser e da terra.

Se isto for importante para ti, reflita, busque compreender-se e me acompanhe na próxima postagem sobre a ansiedade e os tempos modernos.

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